//
você está lendo...
Direitos Humanos, Ecologia, Econômia, Política

Para não darmos com os burros no “inferno” é preciso um novo Renascimento.

Trancados e entrincheirados dentro de seus palácios estavam, a monarquia e o clero, lá fora as multidões erguiam-se ameaçadoras.

O rei e os aristocratas molhavam as calças, enquanto os clérigos apegados em suas relíquias, em preces nas quais nem eles mesmos acreditavam mais.

Enfim as muralhas caíram, o mundo nunca mais seria o mesmo.

A cena que descrevo, aconteceu em muitos lugares é foi fruto de todo um processo;

Quem leu o livro Pilares da Terra de Ken Follett, ou assistiu a bela série produzida sobre este, deve ter reparado e até achado graça, em reações como as do personagem Willian, que ficava congelado, cada vez que era ameaçado com o inferno.

Não vou ser estraga prazeres, contando as cenas, mas o fato é que apesar de ser uma obra de ficção, sobre uma época aparentemente distante de nossa história; digo aparentemente, pois achamos graça do absurdo das reações tão supersticiosas daquela gente, mas será que somos tão diferentes assim?

O fato é que aquele mundo, o medieval, tinha em suas bases, o domínio religioso. A religião é que produzia sentido e fundamentava aquela sociedade, seus costumes, cultura, política, vida e morte. Tudo passava pela igreja. Estou falando da sociedade ocidental.

Como para as coisas fazerem sentido para nós, é preciso falar de dinheiro, destaco o seguinte fato; o lucro era pecado, portanto os comerciantes naquela época, tinham a companhia de teólogos, quem não reparou, que em filmes onde aparecem estas figuras, como por exemplo “Irmão Sol Irmã Lua”, sobre São Francisco de Assis e Santa Clara, Francisco era filho de um rico comerciante, e na casa deste havia um monge.

Não ficando somente na ficção; quem inventou as partilhas, base das ciências contábeis, ou mais ordinariamente chamada, contabilidade, foi um monge franciscano chamado Lucca Paciolo.

Ficar de fora da igreja, em última análise era estar fora da sociedade, o medo certamente estava no padecer eterno da alma no inferno, porém esta danação começaria em vida, uma vez que esta seria praticamente impossível, para que fosse excomungado da igreja.

Afinal de contas, tudo era a partir dela. Mesmo os mais poderosos, nada poderiam fazer sem a anuência dela. Sequer um rei poderia se coroado sem a igreja. O que dizer então da vida dos pobres camponeses.

Todavia este sistema começou a bater em seus limites, a base do poder feudal, ou seja das monarquias e da igreja, que eram as terras, começam a escassear. Acontece que o poder econômico era calcado sobre a posse das terras. Mas na pequena Europa, mesmo com suas tentativas de avanço sobre outros territórios com as cruzadas, tornou-se insuficiente para manutenção da antiga hegemonia. Isto aliado a outros fatores, como resgates intelectuais, que também só foram aceitos na medida que a urgência era econômica, fizeram com que um movimento se fortalecesse, o Renascimento.

Notem, por favor não estou dizendo que as revoluções aconteceram no renascimento, mas tudo foi a partir desta verdadeira mudança de paradigmas.

Enfim, o fato é que neste pouco mais de meio milênio, o mundo, a nossa sociedade mudou muito, a grande maioria das pessoas não dá mais bola para ameaças de danação eterna. Mas será que não?

Será que não vivemos mais sob o julgo de dogmas, que nos petrificam, coíbem nosso exercício de liberdade?

Sinto dizer que isto não é verdade, os dogmas agora não são mais da religião, ou melhor dizendo não das instituições ditas religiosas, estas verdades absolutas, estas regras divinas que temos pavor de transgredir, são as do capital financeiro.

A 20 anos atrás, no Rio de Janeiro acontecia a Eco 92, com participação de pesos pesados da política mundial, este encontro tinha como objetivo, discutir os grandes temas ambientais que preocupavam a sociedade. Teve até uma menina vinda do Canadá, que calou a boca dos figurões. Exercendo o que na tradição cristã, chamamos de tradição profética, ela jogou em nossas caras, uma coisa muito simples, a verdade.

E o que aconteceu com as verdades ditas por Severn Suzuki, uma menina de apenas 12 anos que calou o mundo por 6 minutos? O que aconteceu com a suposta preocupação ambiental das nações que participaram do encontro?

Nada?

Não, não se pode dizer isto, os apelos de Severn e de milhares de outros ativistas que acompanharam aquela reunião, foram sumamente ignorados, assim como acontecia com os profetas do antigo testamento.

Mas os “sacerdotes” do capital, aproveitaram muito bem as oportunidades que apareceram com a “preocupação” ambiental. O mercado financeiro internacional se animou com mais um jogo, o dos bônus de carbono. E outras cositas mais.

Com os bônus de carbono, empresas estrangeiras puderam por exemplo, “comprar” a vida de pessoas. Sim, pois muitas tribos indígenas por exemplo, caíram na esparela de vender seus direitos de emissão de bônus, para estas empresas, e com isto elas passaram a ser praticamente donas de suas vidas, suas terras, seus modos de vida.

Agora com a Rio+20, a história ameaça se repetir. O Brasil, anfitrião desta conferência já começou com péssimos exemplos; como a construção de Belo Monte e outras hidroelétricas na floresta amazônica, este arremedo de código florestal que está sendo enfiado em nós guela abaixo, pela instituição mais retrógrada deste planeta, a bancada ruralista, graças a ela, a PEC do Trabalho Escravo por exemplo, demorou 11 anos para ser aprovada.

No fim das contas, tudo é instrumentalizado pelo capital, e se torna mais um dado para ser jogado em apostas do mercado financeiro internacional. Papeis de carbono, papeis de reserva ambiental, papeis mais papeis, para serem trocados nos grandes cassinos chamados de bolsas.

Lamento, mas nada vai mudar. Ou será que vai?

Ops, lembram-se daquelas multidões que descrevi no início deste texto? Pois é elas estavam lá, para derrubar aquela elite ultrapassada, das monarquias e do clero. Mas elas não estavam sozinhas, sabem quem estava com elas? O capital, o mercado. Eles financiaram a queda do poder antigo, para depois assumirem eles. Este processo deu tão certo, que hoje ditam as regras e jogam no inferno da miséria e da destruição, pessoas e o planeta.

Porém agora, os entrincheirados são eles, o capital e o mercado, do lado de foram as multidões começam a se formar, mas agora não são financiadas, apenas impulsionadas pela fome e pelo desespero, ao lado delas está o planeta, a criação.

Não haverá nenhuma mudança, a não ser que este novo Renascimento aconteça, para que possamos ver que;

Da mesma forma que o inferno queimava as pessoas, somente porque todos aderiam ao imaginário religioso. A miséria só existe, porque nós adotamos o imaginário financeiro.

É preciso nos desprender destas amarras.

Não vai ser fácil, ninguém disse que seria, mas é preciso.

Anúncios

Sobre Paulo Sanda

Abençoado com uma linda e querida esposa e filhos maravilhosos (hehe que pai não diz isto). Teólogo em formação, sempre pensando, humanista, e sócio-ambientalista. Membro fundador da ONG RUAH http://www.gaiacasacomum.blogspot.com. Pescador, que não tem nenhum tempo para exercer seu hobby, postulante da IEAB. Articulista do portal Ecodebate. Palestrante, ex-profissional da área de tecnologia. Adepto do GNU. E...?

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Clique para assinar este blog e receber notificações de novos artigos por email

Junte-se a 374 outros seguidores

Cassetadas no Twitter

Acessos

  • 2,526 hits
%d blogueiros gostam disto: