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Histórias

Vamos ao velório?

Quem me conhece de longa data pode se espantar com o título que escolhi para este texto.
Explico; sempre achei uma chatice ir a velórios, costumava até a dizer que não iria nem no meu, não é uma questão de medo ou qualquer outra fobia a este respeito. Apenas achava sem sentido, era melhor enterrar, ou, melhor, cremar e pronto.
Agora tenho que dar a mão a palmatória. O velório é sim muito importante,  hoje a meu ver, mais significativo que o enterro (olha eu apanhando de novo daqui a algum tempo).
Por estes dias fui avisado da morte do pai de um amigo, bem na verdade eu tinha o pai em tão alta estima quanto o amigo, pois também gozei de um pequeno convívio com o senhor de mais de noventa anos. Não digo que era daqueles velhinhos simpáticos, era ranzinza, e dificilmente esboçava um sorriso. Cheio de manias, mas ao mesmo tempo nas entrelinhas de suas atitudes, consegui sentir um homem bom que se preocupa com os demais. Devo muitas coisas a ele.
Fui então ao velório, prestar minha homenagem a ele e as condolências a família. Digo homenagem, pois acredito que não será a última, pois procurarei falar dele para as pessoas, não como uma evangelização ou divulgar-lo, apenas para honrar sua memória, contando as coisas boas que ele fez, o que devo a ele, o que aprendi com ele nos poucos minutos que tinha contato. Por falar em contar, por exemplo, hoje faço parte de um ótimo grupo escoteiro, devo este fato a ele, pois foi por ele enviar material deste grupo para mim, que me interessei e fui conhecer.
Mas este artigo não se destina a contar minha relação ou melhor a relação que minha família mantia com este bom velhinho, então vamos continuar a narrativa do velório.
Ao chegar ao velório as 22 horas de um domingo ficamos procurando a sala onde estariam velando o corpo. O corredor era em T, a porta de entrada uma sala de velório a direita, não reparei se havia outra a esquerda, andando mais 3 passos haviam salas para direita e outras tantas para esquerda. Procuramos para ambos os lados, ou melhor eu procurei, pois minha esposa havia visto a lista e já estava frente a sala quando eu ainda procurava pela ala esquerda. Do lado direto haviam algumas salas com umas poucas pessoas mas na ala oposta havia um velório lotado! Muitas pessoas todas vestidas elegantemente.
Achei minha esposa então em frente ao velório, ou melhor da sala onde estava o corpo de nosso querido amigo.
Fechada.
Apenas um aviso agradecendo a presença de quem porventura viesse, informando que a família estaria de volta as 7 horas da manhã, o enterro seria as oito.
Fiquei momentaneamente chocado.
Mas por que fiquei chocado? Hoje isto é comum, afinal, já existe a modalidade do assalto a velórios. Além do que eu sempre achei uma perda de tempo ficar ali velando um corpo.
Enquanto isto naquela sala cheia de homens de terno e gravata e mulheres de vestido, começaram a entoar hinos. Então pude compreender. Eram crentes, evangélicos, cristãos, enfim use-se o rótulo que for, a verdade é que era uma comunidade que estava ali, solidário aos que sofriam, homenageando o falecido e trocando momentos de convívio.
Neste ponto notei que algo me incomodava. Não tenho intenção de criticar a atitude da família que fechou o velório e foi embora, pois pelas minhas próprias convições, eu concordava com eles.
O que estava errado então?
Meditando sobre o assunto, tive que desconstruir minhas ideias a este respeito.
O enterro é apenas a formalização do fim da vida. Um religioso (padre, reverendo, pastor, monge, etc, isto quando há) diz algumas palavras, o corpo desce a sepultura ou entra no forno crematório, são feitos agradecimentos formais aos presentes em nome da família, e dependendo da religião é dado o aviso da missa, culto ou rooji.
Mas o velório é uma comemoração a vida! Nos mais tristes, geralmente de jovens ou crianças, existe muito pesar, choro e sofrimento, mas as pessoas estão ali para dividir a dor dos pais e irmãos. Das pessoas mais maduras ou que sofriam há muito tempo, o clima costuma ser mais ameno, muitas vezes rolam até as famosas piadas de velório.
Seja como for, é um momento onde as pessoas se encontram, muitas vezes velhos conhecidos ou parentes que há muitos tempo não se viam. Conversam, falam sobre suas vidas, dividem experiências, renovam laços, mas principalmente, é inicado um processo de construção da memória da pessoa que se foi. Ela não cai no esquecimento, mas continua a fazer parte da vida de todos que ficam.
Isto nos remete ao fato que com a urbanização, os valores comunitários que existiam nas sociedades do campo, se perderam. O homem do campo dependia de relações de compadrio por exemplo. Em situações difíceis, eram os “cumpadres” que davam a mão, ou na hora de executar um grande trabalho. As mulheres se uniam para fazer as festas, para cuidar dos doentes, enfim tudo girava em torno de um senso comunitário. Se o “cumpadi” fica sem casa, seja por um incendio, uma enchente, etc. A família dele não fica sem teto, tem logo não um mas vários convites para se abrigarem enquanto a comunidade junta esforços para a reconstrução. Se a “cumadi” fica doente e o “cumpadi” não tem como cuidar da mulher, dos filhos e do roçado, logo muitas mulheres da comunidade se revezam, não só para cuidar da “cumadi”, mas também para dar conta da família dela e todos os afazeres domésticos. É a visão no “nosso”.
Mas na sociedade urbana e principalmente de consumo que criamos o que impera é o “meu”, é a minha vida, minhas coisas, meu tempo. A meta de cada um é alcançar sua indepêndencia. Sonhamos que nosso filhos sejam pessoas bem sucedidas, de quebra, honestas e felizes, mas a felicidade, e o que é pior, a honestidade dependem do sucesso alcançado. Medimos as pessoas pelo que elas tem, não pelo que elas são.
Esta visão individualista nos impede de ver o outro, e quando enxergamos, queremos que ele se encaixe no que nos gera valor, um valor que nunca poderá ser alcançado uma vez que é individual. Com isto as relações tem dificuldade de se consolidar.
Precisamos ampliar e aprofundar nossos relacionamentos, sair da superficialidade. Trata-se de um exercício de entrega.
Seja como for, que tal um veloriozinho hoje?
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Sobre Paulo Sanda

Abençoado com uma linda e querida esposa e filhos maravilhosos (hehe que pai não diz isto). Teólogo em formação, sempre pensando, humanista, e sócio-ambientalista. Membro fundador da ONG RUAH http://www.gaiacasacomum.blogspot.com. Pescador, que não tem nenhum tempo para exercer seu hobby, postulante da IEAB. Articulista do portal Ecodebate. Palestrante, ex-profissional da área de tecnologia. Adepto do GNU. E...?

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